Jeitinho de professor
Estou cansada. Meu orgulho me deixa cansada. Meu egoísmo me deixa cansada. Minha vaidade me deixa cansada. Acredite, Renato: você fala por si e pelos outros em tempo presente.
Hoje você está falando por professores. Por uma professora. Uma cansada, desnutrida de ânimo e atormentada pelo descaso.
Já disseram, em algum momento qualquer, que ser professor é ser criador de mundos, divisor de águas e apresentador de possibilidades. Professor já foi visto como grande. Para muitos, ídolo. Foi até respeitado, juro! Nessa época, aluno algum ousaria colocar veneno de rato em bebedouro de professores ou daria dois tiros no diretor. Não, não. Nenhum professor levava cadeirada, socos, facadas, ameaças, xingamentos. Eles nem eram roubados pelos próprios alunos. A instituição defendia essa raça. A população defendia. O governo reconhecia. Alunos tinham direito e dever. Era uma profissão.
Quantos apontam o problema da educação neste país, meu Deus! Tantas teorias, tantos diagnósticos. Solução, não se vê. Eu, pelo menos, no auge da minha ignorância, não vejo nada.
Os alunos não sabem o porquê da escola. Conhecimento tornou-se obrigação. “Você tem que passar no vestibular”. Ninguém se lembra do prazer em aprender. Lembrar? Só é possível lembrar o que já se viveu ou conheceu. Falta aos alunos serem apresentados ao prazer de conhecer. É o prazer que torna nossas ações cotidianas em grandes acontecimentos para uma vida inteira.
O Brasil está cada vez mais se afundando (afundam-no). Alguém, por favor, poderia mostrar a esse governo filho da puta que a educação é uma mentira? Que nós, professores, temos que empurrar, ano a ano, alunos sem conhecimento algum? Será que ninguém vê isso? Ah... o governo vê sim. Ele sabe tudo!
Olhem nas faculdades, nas universidades, no ensino abaixo do básico que cospe jovens alienados numa sociedade mais alheia ainda ao mundo do saber. E estas propagandas ridículas que o Governo Federal insiste em jogar na TV dizendo o tempo inteiro, em números – deixemos claro que, em matéria de números, somos muito bons! Às vezes ficamos até em primeiro lugar – que nosso país está melhorando, que o ensino está melhorando, que a educação está melhorando? Parece piada. Inventaram até o tal do IDEB. Como nosso País tem bom humor! Índice de Desenvolvimento da Educação Básica; médias de desempenho. Esqueceram de colocar nas propagandas que as escolas ganham por um índice alto. Ou seja, caso o índice caia, a verba não chega (base da troca, ora). Como então receber o dinheiro? Se as escolas, em situações precárias (para não dizer lixo de muitas), não estiverem com um índice elevado, essa verba não chegará à instituição. O que fazer? Aumentar o índice, ora. Como? Bingo: doando notas! Ninguém quer ficar sem dinheiro, quer? Todas as instituições querem ter papel higiênico nos banheiros, panelas para a cantina, carteiras para os alunos, quadro, giz, papel e por aí vai. Sim, existem outras verbas para tais fins. Contudo, sabemos que se fossem suficientes, nada estaria como está.
Quem sou eu para dizer algo? O que eu sei? Não sei nada. Não sou nada. Educadora, jamais! Sou, atualmente, uma professora. Ganho cerca de R$ 4,75 hora/aula e já está de bom tamanho. Não tenho que reclamar de nada, ora. Meus alunos não se importam com o que eu passo a eles. Ninguém questiona ou critica meu conhecimento justamente por não saber do que se trata. Está tudo tão cômodo. Esse negócio de índice, rendimento, conhecimento, formação, educação... utopias! E o fato de alguns professores sofrerem agressões de vez em quando, não é problema para nós brasileiros. Nosso jeitinho dá jeito em tudo!
Ana Paula Caixeta, professora indignada.
sábado, 21 de novembro de 2009
quinta-feira, 22 de outubro de 2009

Pedro o Podre: colaborador da mofa
"Tudo começou com uma "brainstorm" onanista em janeiro de 77, num quarto
de pensão no alto de Santa Teresa. Quando terminou a bronha de cuca,
tava parido o primeiro DOBRABIL e eu ganhava dois colaboradores: Pedro e Garcia Loca (el maricón con mucha audacia), aos quais se juntaram depois vários japoneses "sakanas" como Massashi Sugawara, Masao Konno e Tomokatsu Saito (o Sirigaito). Mas, deles todos, Pedro sempre foi o
Primeiro, o Grande e o mais de Lara." ¹
Em 1982, Glauco Mattoso dá início às “Chronicas do Baixo Bixiga”, publicadas no humorístico PASQUIM e que, na mesma época, surgiria na REVISTA DEDO MINGO. Como parte característica do perfil de Mattoso, tais publicações não se diferenciavam de seu perfil ousado.
Pedro surge um pouco antes, 1977, na primeira edição do JORNAL DOBRABIL. Segundo Mattoso, ele caracteriza-se como uma espécie de Mister Hyde, ou seja, gosta de estar à mostra. Ele afirma que há um pouco de si em Pedro e em suas atitudes apresentadas em cada publicação do pastiche. Outrora, o autor ironiza que tem muito de Pedro nas coisas em que ele produz. Há uma dicotomia. Um é o outro e o outro é um, sendo que, ambos, são únicos e individuais. Glauco brinca e compara essa real-personagem a um “alter id”: “não larga do meu pé e me faz a cabeça”.
Pobre de Pedro, costela de Glauco. Criação unificada que rebarba e baba toda e qualquer expressão excretada. É um extremo de Mattoso. Possui coragem complementar a do criador, sem misturar-se à audácia vadia do mesmo. É um jogo sujo que repugna a limpeza. Das palavras? Das belas palavras e tão esperadas à ponderação? Pedro colabora fielmente e exerce um papel impecável de subversor mor do folhetim dobrável.
"Uma vez pintou um simpósio (ou conclave, não me lembro bem) de
beletristas, e sobrou convite pra mim. Mas quem compareceu foi Pedro,
com crachá e tudo. Auditório lotado, um calorão de estalar sovaco. Todo
mundo se abanando com o temário, agüentando a gravata e os merquiores
da vida, enquanto o Pedro, na penúltima fila, esbanjava seu tédio. De
vez em quando, pigarreava mais alto que os outros, puxava da lancheira
uma garrafinha de guaraná, emborcava rapidinho (enxugando a boca com as costas da mão) e tornava a guardar, sob o olhar escandalizado do
pessoal em volta. E ficava ouvindo os cochichos: "Que cara grosso!"; "E
que mau gosto: guaraná sem gelo no gargalo é pior que café frio no
copo..."; "Inda se fosse de canudinho..."; "É grosso mas é prevenido, e
a gente aqui morrendo de sede..." De repente, no ponto alto duma
affonso-romanada, Pedro pediu pro cara do lado tomar conta da lancheira
enquanto ele ia fazer xixi. E saiu antes que o cara dissesse se tomava
ou não. O cara se assanhou, engoliu em seco e se segurou meio minuto
antes de perder a compostura e esquecer o nojo. Abriu a lancheira,
agarrou a garrafinha, destampou, passou a manga da camisa na boca do
gargalo e virou um gole bem cheio. Engasgou no ato, arregalado. É que o
Pedro não tava bebericando nada da garrafa: tava era escarrando
discretamente um catarrinho fluente. "Discretamente" é modo de dizer,
né?
Na próxima crônica conto o que o Pedro aprontou com o Drummond."²
Glauco Mattoso é perverso, diga-se. Não mais que Pedro. Não mais que Maria, João, José, Capitu, Caetano, Madalena, Macabéa nem Brás. Todos teriam tanta quanta vontade de aparecer e agir conforme necessidade vital. Isso é viver. A liberdade em ser o que realmente se é. A naturalidade de ver, não gostar, saborear e vomitar o que existe. Analisar GM é reconhecer a não-prisão das palavras, da criatividade, da particularidade e do respeito – não deles, é claro! Afinal, estão cumprindo seus papéis de marginais e heróis da literatura.
Ou cospe ou beija. Aja.
¹Glauco Mattoso em entrevista por correspondência eletrônica:2009 (arquivo particular)
²idem
Ana Paula Caixeta
_________________________________________________________________________
Ele afirmava a volta do sol...
Eu espero a volta do sol.
____________________________________________________________________________________
Sintomas
É como se a angústia fosse mais necessária que a respiração. Não tenho culpa. Acordei com a sensação infantil de ser infantil. O mais legal nisso tudo é o desnecessário. Ninguém precisa entender. É como se eu estivesse falando sozinha em público e ninguém me chamasse de louca. Até sorri agora! Pois louca eu sou.
Anarina
___________________________________________________________________________________
“logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato e abro os meus braços pra você”
Ah! Chico!
Você sabe sentir o que sentimos nós!
Você faz sentir o que sentimos nós!
Você sente o que fazemos nós!
Você sente e faz a nós
Com açúcar e nós,
Com afeto e nós.
Poeminina ao enlaçador
de Ana Paula Caixeta sem Açúcar
¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨¨
terça-feira, 20 de outubro de 2009
.
Alienação
Sabe-se desta tal de vida.
Alguém já comentou, tenho certeza.
Só que não entendi ainda
onde coloco a planta dos meus pés.
Ães
Vem de lá daquele lugar escondido
É.
Daquele mesmo.
Até pronunciei para mamãe uma vez, mas ela achou feio.
[Existem palavras que dão medo nas mães – ou talvez as mães que
dão medo]
A minha até que não. Só não soube ainda escutar minhas palavras que dão medo.
Mas medo só em mim.
As mães são fortes. As mães não têm medo.
Eu tenho.
Desenhonhinhos
Eu realmente não sei escrever.
Mas é tão engraçado isso!
Sabe aquele barulho da ponta do lápis no papel? (eu prefiro os lápis sempre)
Então! Esse barulho faz minha mão voar na base branca e riscar uns desenhos estranhos, quase palavras.
Não tem mais
Tinha uma moça que tinha uns anos grandões e tinha agonia de ter tantos dias e tinha ânsia de ter tantas coisas e tinha medo de ter medo das coisas quando tinha que pensar que tinha que fazer o mundo que tinha em mente já estar feito em meio ao que tinha deixado para trás do que tinha planejado enquanto tinha sonhos dentro do que tinha dentro do que tinha na ponta dos pés ao lado do que tinha no canto que tinha o ponto onde tinha parado.
Confissão
Eu juro dizer a verdade:
−Sou Anarina do Bandeira que fugiu para viver de brisa.
A primeira vez
...mas não conseguia dormir. A pequena ficou sentada, meio corcunda, pensando na dor fina que a cabeça a fazia sentir e nas horas mastigadas que traziam o domingo.
Foi na madrugada o início das palavras...
Síndrome macabeana
Eu acho que sou invejosa.
Sou péssima por isso, eu sei.
Mas sinto um montão de inveja.
Eu não sei cantar.
Eu não sei dançar.
Eu não sei fazer humor.
Eu não sei fazer.
Eu não sei escrever.
Eu não sei admirar.
Eu não sei tentar.
Eu não sei conseguir nem desistir.
Eu não sei, já sei.
Tem comprimido para não saber?
Meus inúteis poemas úteis À EU!
Ana Paula Caixeta
********************************
Alienação
Sabe-se desta tal de vida.
Alguém já comentou, tenho certeza.
Só que não entendi ainda
onde coloco a planta dos meus pés.
Ães
Vem de lá daquele lugar escondido
É.
Daquele mesmo.
Até pronunciei para mamãe uma vez, mas ela achou feio.
[Existem palavras que dão medo nas mães – ou talvez as mães que
dão medo]
A minha até que não. Só não soube ainda escutar minhas palavras que dão medo.
Mas medo só em mim.
As mães são fortes. As mães não têm medo.
Eu tenho.
Desenhonhinhos
Eu realmente não sei escrever.
Mas é tão engraçado isso!
Sabe aquele barulho da ponta do lápis no papel? (eu prefiro os lápis sempre)
Então! Esse barulho faz minha mão voar na base branca e riscar uns desenhos estranhos, quase palavras.
Não tem mais
Tinha uma moça que tinha uns anos grandões e tinha agonia de ter tantos dias e tinha ânsia de ter tantas coisas e tinha medo de ter medo das coisas quando tinha que pensar que tinha que fazer o mundo que tinha em mente já estar feito em meio ao que tinha deixado para trás do que tinha planejado enquanto tinha sonhos dentro do que tinha dentro do que tinha na ponta dos pés ao lado do que tinha no canto que tinha o ponto onde tinha parado.
Confissão
Eu juro dizer a verdade:
−Sou Anarina do Bandeira que fugiu para viver de brisa.
A primeira vez
...mas não conseguia dormir. A pequena ficou sentada, meio corcunda, pensando na dor fina que a cabeça a fazia sentir e nas horas mastigadas que traziam o domingo.
Foi na madrugada o início das palavras...
Síndrome macabeana
Eu acho que sou invejosa.
Sou péssima por isso, eu sei.
Mas sinto um montão de inveja.
Eu não sei cantar.
Eu não sei dançar.
Eu não sei fazer humor.
Eu não sei fazer.
Eu não sei escrever.
Eu não sei admirar.
Eu não sei tentar.
Eu não sei conseguir nem desistir.
Eu não sei, já sei.
Tem comprimido para não saber?
Meus inúteis poemas úteis À EU!
Ana Paula Caixeta
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