quinta-feira, 22 de outubro de 2009


Pedro o Podre: colaborador da mofa

"Tudo começou com uma "brainstorm" onanista em janeiro de 77, num quarto
de pensão no alto de Santa Teresa. Quando terminou a bronha de cuca,
tava parido o primeiro DOBRABIL e eu ganhava dois colaboradores: Pedro e Garcia Loca (el maricón con mucha audacia), aos quais se juntaram depois vários japoneses "sakanas" como Massashi Sugawara, Masao Konno e Tomokatsu Saito (o Sirigaito). Mas, deles todos, Pedro sempre foi o
Primeiro, o Grande e o mais de Lara." ¹

Em 1982, Glauco Mattoso dá início às “Chronicas do Baixo Bixiga”, publicadas no humorístico PASQUIM e que, na mesma época, surgiria na REVISTA DEDO MINGO. Como parte característica do perfil de Mattoso, tais publicações não se diferenciavam de seu perfil ousado.
Pedro surge um pouco antes, 1977, na primeira edição do JORNAL DOBRABIL. Segundo Mattoso, ele caracteriza-se como uma espécie de Mister Hyde, ou seja, gosta de estar à mostra. Ele afirma que há um pouco de si em Pedro e em suas atitudes apresentadas em cada publicação do pastiche. Outrora, o autor ironiza que tem muito de Pedro nas coisas em que ele produz. Há uma dicotomia. Um é o outro e o outro é um, sendo que, ambos, são únicos e individuais. Glauco brinca e compara essa real-personagem a um “alter id”: “não larga do meu pé e me faz a cabeça”.
Pobre de Pedro, costela de Glauco. Criação unificada que rebarba e baba toda e qualquer expressão excretada. É um extremo de Mattoso. Possui coragem complementar a do criador, sem misturar-se à audácia vadia do mesmo. É um jogo sujo que repugna a limpeza. Das palavras? Das belas palavras e tão esperadas à ponderação? Pedro colabora fielmente e exerce um papel impecável de subversor mor do folhetim dobrável.

"Uma vez pintou um simpósio (ou conclave, não me lembro bem) de
beletristas, e sobrou convite pra mim. Mas quem compareceu foi Pedro,
com crachá e tudo. Auditório lotado, um calorão de estalar sovaco. Todo
mundo se abanando com o temário, agüentando a gravata e os merquiores
da vida, enquanto o Pedro, na penúltima fila, esbanjava seu tédio. De
vez em quando, pigarreava mais alto que os outros, puxava da lancheira
uma garrafinha de guaraná, emborcava rapidinho (enxugando a boca com as costas da mão) e tornava a guardar, sob o olhar escandalizado do
pessoal em volta. E ficava ouvindo os cochichos: "Que cara grosso!"; "E
que mau gosto: guaraná sem gelo no gargalo é pior que café frio no
copo..."; "Inda se fosse de canudinho..."; "É grosso mas é prevenido, e
a gente aqui morrendo de sede..." De repente, no ponto alto duma
affonso-romanada, Pedro pediu pro cara do lado tomar conta da lancheira
enquanto ele ia fazer xixi. E saiu antes que o cara dissesse se tomava
ou não. O cara se assanhou, engoliu em seco e se segurou meio minuto
antes de perder a compostura e esquecer o nojo. Abriu a lancheira,
agarrou a garrafinha, destampou, passou a manga da camisa na boca do
gargalo e virou um gole bem cheio. Engasgou no ato, arregalado. É que o
Pedro não tava bebericando nada da garrafa: tava era escarrando
discretamente um catarrinho fluente. "Discretamente" é modo de dizer,
né?
Na próxima crônica conto o que o Pedro aprontou com o Drummond."²


Glauco Mattoso é perverso, diga-se. Não mais que Pedro. Não mais que Maria, João, José, Capitu, Caetano, Madalena, Macabéa nem Brás. Todos teriam tanta quanta vontade de aparecer e agir conforme necessidade vital. Isso é viver. A liberdade em ser o que realmente se é. A naturalidade de ver, não gostar, saborear e vomitar o que existe. Analisar GM é reconhecer a não-prisão das palavras, da criatividade, da particularidade e do respeito – não deles, é claro! Afinal, estão cumprindo seus papéis de marginais e heróis da literatura.
Ou cospe ou beija. Aja.



¹Glauco Mattoso em entrevista por correspondência eletrônica:2009 (arquivo particular)
²idem




Ana Paula Caixeta


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Ele afirmava a volta do sol...
Eu espero a volta do sol.



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Sintomas




É como se a angústia fosse mais necessária que a respiração. Não tenho culpa. Acordei com a sensação infantil de ser infantil. O mais legal nisso tudo é o desnecessário. Ninguém precisa entender. É como se eu estivesse falando sozinha em público e ninguém me chamasse de louca. Até sorri agora! Pois louca eu sou.



Anarina

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“logo vou esquentar seu prato, dou um beijo em seu retrato e abro os meus braços pra você”


Ah! Chico!
Você sabe sentir o que sentimos nós!
Você faz sentir o que sentimos nós!
Você sente o que fazemos nós!
Você sente e faz a nós
Com açúcar e nós,
Com afeto e nós.


Poeminina ao enlaçador





de Ana Paula Caixeta sem Açúcar


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terça-feira, 20 de outubro de 2009

.
Alienação


Sabe-se desta tal de vida.
Alguém já comentou, tenho certeza.
Só que não entendi ainda
onde coloco a planta dos meus pés.





Ães


Vem de lá daquele lugar escondido
É.
Daquele mesmo.
Até pronunciei para mamãe uma vez, mas ela achou feio.
[Existem palavras que dão medo nas mães – ou talvez as mães que
dão medo]
A minha até que não. Só não soube ainda escutar minhas palavras que dão medo.
Mas medo só em mim.
As mães são fortes. As mães não têm medo.
Eu tenho.







Desenhonhinhos



Eu realmente não sei escrever.
Mas é tão engraçado isso!
Sabe aquele barulho da ponta do lápis no papel? (eu prefiro os lápis sempre)
Então! Esse barulho faz minha mão voar na base branca e riscar uns desenhos estranhos, quase palavras.




Não tem mais


Tinha uma moça que tinha uns anos grandões e tinha agonia de ter tantos dias e tinha ânsia de ter tantas coisas e tinha medo de ter medo das coisas quando tinha que pensar que tinha que fazer o mundo que tinha em mente já estar feito em meio ao que tinha deixado para trás do que tinha planejado enquanto tinha sonhos dentro do que tinha dentro do que tinha na ponta dos pés ao lado do que tinha no canto que tinha o ponto onde tinha parado.







Confissão

Eu juro dizer a verdade:
−Sou Anarina do Bandeira que fugiu para viver de brisa.






A primeira vez

...mas não conseguia dormir. A pequena ficou sentada, meio corcunda, pensando na dor fina que a cabeça a fazia sentir e nas horas mastigadas que traziam o domingo.
Foi na madrugada o início das palavras...






Síndrome macabeana

Eu acho que sou invejosa.
Sou péssima por isso, eu sei.
Mas sinto um montão de inveja.
Eu não sei cantar.
Eu não sei dançar.
Eu não sei fazer humor.
Eu não sei fazer.
Eu não sei escrever.
Eu não sei admirar.
Eu não sei tentar.
Eu não sei conseguir nem desistir.
Eu não sei, já sei.
Tem comprimido para não saber?



Meus inúteis poemas úteis À EU!
Ana Paula Caixeta

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